Por Erick
O Anathema é uma daquelas bandas que eu descobri tarde demais para acompanhar a evolução em tempo real, mas cedo o suficiente para me apaixonar por cada fase. E talvez isso faça sentido: conforme eles foram deixando o peso extremo para trás, suas composições ficaram mais acessíveis para quem, como eu, não tem o metal mais bruto como preferência absoluta. Curiosamente, vivi processo parecido com Katatonia, e em menor grau com o Opeth. Todas essas bandas começaram mergulhadas na podreira, com guturais e afinações graves, mas aos poucos foram suavizando o som sem abrir mão da complexidade musical e da profundidade lírica.
Essa transição sonora atinge um dos seus pontos mais altos em The Optimist, lançado em 2017. É nesse contexto que chego ao álbum, que sem que ninguém soubesse na época marcaria o último suspiro criativo do Anathema.

A banda vivia um momento de plena forma, excursionava pelo mundo, recebia elogios da crítica e já planejava o sucessor do disco. A formação era das mais sólidas e maduras da carreira: Lee Douglas nos vocais, Danny e Vincent Cavanagh dividindo guitarras, teclados e vocais, Jamie Cavanagh no baixo, John Douglas na bateria e nos teclados, e Daniel Cardoso reforçando a bateria adicional, a percussão e a programação eletrônica. Era um time afinado, emocionalmente conectado e capaz de criar atmosferas que só eles sabiam construir. Entre as faixas do álbum surgia “Endless Ways”, que já despontava como uma das composições mais marcantes dessa fase final.
Mas então a pandemia simplesmente implodiu tudo. Como tantas bandas de médio porte, o Anathema dependia de turnês e merch para sobreviver, e sem isso não havia como manter a máquina funcionando. O grupo suspendeu as atividades, vendeu equipamentos no eBay e pouco depois anunciou o fim. O impacto emocional foi devastador, especialmente para Danny Cavanagh, que enfrentou uma depressão profunda e precisou se afastar para cuidar da própria saúde.
Com o fim da pandemia, cada um seguiu seu caminho. Vincent formou o The Radiant, apostando em um indie rock melancólico, enquanto Danny decidiu resgatar o legado emocional do Anathema através do projeto Weather Systems, cujo álbum de estreia já foi resenhado aqui no PauleraCast, junto com uma conversa detalhada sobre esse momento crítico da carreira dele.
E é justamente nesse cenário, de uma banda no auge criativo mas prestes a desaparecer, que “Endless Ways” ganha um significado ainda mais especial.
A faixa é um exemplo cristalino da elegância que o Anathema alcançou em sua fase final. A estrutura é típica da banda: um acorde simples que se repete, camadas de teclado e sintetizadores que vão se acumulando, uma bateria discreta, sem firulas. Mas é nos vocais de Lee Douglas que a música encontra sua alma. Lee canta com uma combinação rara de delicadeza e potência; seus vibratos são precisos, sua interpretação é carregada de emoção e há uma doçura natural na forma como ela conduz cada verso.
Em “Endless Ways”, ela entrega uma performance melancólica e profundamente humana, transformando a canção em uma declaração de amor no sentido mais amplo possível. A letra permite múltiplas leituras: pode ser sobre um casal, sobre pais e filhos, sobre amigos que se apoiam em momentos difíceis. Cada ouvinte encontra ali o significado que sua própria alma consegue absorver.
Dentro de um álbum que, pelas circunstâncias, acabou se tornando o último da banda, “Endless Ways” funciona quase como um presente de despedida. Uma faixa que sintetiza tudo o que o Anathema se tornou: sensível, atmosférico, emocionalmente devastador. Não é à toa que muitos fãs, eu incluso, a consideram uma das composições mais inspiradas de toda a carreira do grupo. Uma música que fala de amor, mas também de permanência. De tudo aquilo que fica, mesmo quando a banda não pôde ficar.




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