Por Erick
Embarcamos cedo rumo à São Paulo no começo da tarde cinzenta, tipicamente paulistana, de 26 de fevereiro de 2026. Digo “embarcamos” porque, desta vez, além deste humilde escriba, o Professor e nosso ouvinte número um, o João, decidiram percorrer a estrada para o inferno rumo ao Morumbis para assistir ao AC/DC ao vivo. Era uma oportunidade rara, provavelmente uma das últimas (se não a última) passagens do quarteto por estas bandas.

Ao começar a caminhada em direção ao estádio, a primeira constatação foi imediata: estávamos diante de um evento voltado aos grisalhos (me, included). Ainda assim, chamava atenção a quantidade de gente mais jovem, muitos acompanhados de pais ou familiares. E isso é ótimo! Assistir ao AC/DC é um momento canônico na formação de qualquer relação com o rock que se preze. Se for preciso gastar um rim para levar a prole ao show e garantir que o legado dos australianos siga firme com a nova geração, a missão está mais do que justificada.
A segunda observação veio logo em seguida: o mercado informal é rápido para adaptar sua oferta à demanda. Além dos tradicionais gorós, chugatos e camisetas de procedência duvidosa (saudades do “Camissêta”, entendedores entenderão), o item mais popular da noite eram as tiaras de chifres de LED. Vendidas aos borbotões, adornavam tanto cabeças de calvos-cabeludos quanto de jovens meninas em plena puberdade, todas unidas na homenagem ao bom e velho Angus. Assim como a pizza de 10 e o sanduba de pernil, essas tiaras tinham tudo para virar um clássico, caso a banda viesse ao Brasil com mais frequência.
Dentro do estádio, esperamos até as 19h para finalmente ouvir música ao vivo. A banda responsável pelo aquecimento foi a The Pretty Reckless, liderada pela Gossip Girl, Taylor Momsen. Em pouco menos de uma hora, a loira entregou dez músicas executadas com competência. Mais pesados ao vivo do que em estúdio, os quatro nova-iorquinos cumpriram o papel de preparar o público para a atração principal, embora sem despertar grandes paixões. Taylor, dona de uma voz grave e forte, tentou interagir com a plateia com frases decoradas em português e o clássico “Put your hands up in the air!”, mas a resposta foi apenas protocolar. Essa é a palavra: missão cumprida, sem brilho.
Às 21h, cravado, os telões de altíssima definição espalhados pelo fundo e pelas laterais do palco começaram a exibir o vídeo de abertura dos grandes convidados da noite. O ronco do motor do carro protagonista da peça já anunciava o tom das próximas horas: muito barulho bom, sujeira e a rouquidão de motores que combinam perfeitamente com um dos estilos mais emblemáticos e reconhecíveis da história do rock.

Como escrevi acima, assistir ao AC/DC é um evento canônico. Não sou fã die hard da banda e comprei o ingresso (caríssimo) mais pela consciência histórica do que pela ansiedade de vê-los ao vivo. Mas foi impossível não sentir os pelos do braço arrepiarem quando soaram os primeiros acordes de If You Want Blood, Back in Black ou Thunderstruck, esta última um dos pontos mais altos da apresentação.
E lá estava Mr. Young, com seus 70 e tantos anos, a poucos metros de distância, mandando riff após riff e esbanjando carisma a cada olhada para a câmera e a cada dancinha típica encaixada nos solos. A energia desse senhor é algo que deveria ser estudado pela ciência.
Falar o quê de Brian Johnson? Quase oitenta anos, recém recuperado de sérios problemas de audição, ele faz o que pode para alcançar os tons altos e rasgados que as músicas do AC/DC exigem. Se ao ver os vídeos do show da terça (24/02) eu me preocupei, na noite de sábado me resignei. Brian não tenta mascarar seus limites, mas entrega presença, respeito e uma conexão genuína com os milhares de fãs que o acompanham há décadas. E, honestamente, prefiro o Brian assim ao Axl assassinando as músicas, como aconteceu há alguns anos.
O repertório foi um desfile de clássicos históricos do rock, todos recebidos com fervor absoluto. Até sons menos populares, como Stiff Upper Lip e Riff Raff, foram cantados a plenos pulmões. Além da já citada Thunderstruck, para mim os destaques foram Hells Bells, Jailbreak (a melhor interação banda/público da noite), Whole Lotta Rosie e o apoteótico encerramento com T.N.T. e For Those About to Rock. Vou me arrepender de deixar outros de fora, mas, passadas pouco menos de 24 horas do show, são essas músicas que permanecem mais vivas na minha memória.
E que memórias! Tenho certeza de que não vou esquecer esse show tão cedo, não apenas pela experiência em si, mas pela incrível sensação de ter riscado um item importante da minha bucket list roqueira.




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