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Os trinta anos de Holy Land do Angra

Por Erick

Dia 23 de março de 1996 caiu num sábado. Como eu trabalhava aos sábados, minhas idas à Galeria do Rock, em São Paulo, ficavam restritas aos intervalos entre a capital e o ABC, naquele curto espaço entre o fim das aulas na faculdade e o início do expediente, durante a semana. Por isso, precisei esperar essa brecha para comprar o recém‑lançado Holy Land, segundo play do Angra, no mítico reduto rock’n’roll da 24 de Maio.

Provavelmente ouvi alguma faixa na edição do Backstage do domingo seguinte. Não lembro exatamente o que tocou, mas lembro bem da enxurrada de comentários que surgiu na semana posterior.

Poucos eram elogiosos.

Uma grande amiga já havia decretado que o álbum mudaria para sempre a história do metal brasileiro. Ela, porém, nadava na contramão: a maioria dos meus amigos espadinhas puristas torcia o nariz, resistente às experimentações que apelidaram de “Axé Metal”.

Num tempo sem internet rápida, sem streaming, sem nada instantâneo, tudo chegava pelo boca a boca, pelas poucas resenhas que apareciam, pelas conversas de bar que viravam quase debates filosóficos. E quanto mais falavam, mais eu queria ouvir. Entre o “o mais rápido possível” e a tal brecha de agenda, se passaram cinco dias. Comprei o CD na sexta‑feira seguinte, na Galeria.

Lembro de abrir a caixinha no ônibus de volta ao ABC e tentar desdobrar o encarte, que parecia selado a vácuo dentro do acrílico. Observando as imagens, lendo as letras e lembrando das conversas de bar que colecionei durante a semana, fiz uma pré‑imersão no Holy Land que só se completaria em casa, já que nem discman eu tinha na época.

Quando finalmente ouvi, o impacto foi imediato! Crossing já trazia a pegada teatral que apresentava o conceito do álbum. Fui arrebatado pelo riff e pelo refrão de Nothing to Say, que desde o primeiro momento me pareceu um clássico destinado a ser cantado aos plenos pulmões nos shows.

Na sequência, Silence and Distance me conquistou de primeira. A introdução introspectiva, com a voz calma do Andre, se transforma numa música triste, melancólica e potente. Até hoje é meu som preferido do Angra. Me emociono ao lembrar desse momento e das vezes em que pude ouvi‑la ao vivo.

Carolina IV me soou estranha no começo. Só fui entender sua força quando a vi no palco. Percebi que eu também tinha embarcado no preconceito do tal “Axé Metal” e precisei de tempo para enxergar o que estava ali.

A faixa‑título também me intrigou e me conquistou logo de cara. Aquela sensação de “já ouvi isso em algum lugar” nos primeiros acordes de piano me acompanhou por anos. Grandiosa, ousada e complexa, Holy Land fala com a gente, com nossa identidade, com nosso DNA cultural. É o cerne da proposta do álbum, que não poderia ter recebido nome mais perfeito.

A partir daí, admito que o disco perde um pouco da força inicial para mim. Ainda hoje ouço e canto tudo, de The Shaman até Lullaby for Lucifer, mas (com exceção da magnífica Make Believe) nenhuma faixa me toca como o terço inicial o faz.

Não sei quantas vezes ouvi Holy Land desde então. Mas tenho certeza de que é um dos álbuns da minha vida, imbatível na discografia do Angra até hoje. Mais do que isso, marca uma passagem pessoal: o início da faculdade, do trabalho, dos boletos. A vida adulta batendo à porta. E eu, sem perceber, guardando aquele disco como um marco.

Total velho feelings, olho para essa época com nostalgia. Afinal, são trinta anos. E, by the way, minha amiga estava mais do que certa.

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