PauleraCast

O podcast agora também tem site!

Aqui o assunto é o bom e velho ‘roque paulera’! Sem o ‘i’, mesmo!

Por que normalizamos pagar um barão para ir a shows no Brasil?

Por Erick

Se tem uma galera que tomou muita porrada na nefasta pandemia foi o pessoal que trabalha com entretenimento ao vivo. Shows cancelados, turnês engavetadas, produtor passando perrengue, roadie virando motorista de aplicativo, casa de show fechando as portas. Foi um caos. Quem não conseguiu se virar, se reinventar ou simplesmente não teve como, viveu meses tão sombrios quanto um play de Doom Metal.

Então era óbvio que, quando tudo voltasse ao normal, ia rolar uma explosão de eventos. Todo mundo querendo recuperar o tempo perdido, a grana perdida e, principalmente, celebrar o fato de ainda estar vivo e respirando.

Uma catarse coletiva, tipo final de show do Queen, só que com boleto.

E não deu outra. A sensação, ainda que sem estatísticas formais, é que de 2023 pra cá o número de shows internacionais no Brasil aumentou consideravelmente. Em todos os estilos, inclusive no rock. Nos últimos dois ou três anos, quantas vezes você não precisou fazer malabarismo financeiro e logístico para tentar ir a todos os shows anunciados das suas bandas favoritas? Imagino você lá fazendo conta pra ver se dava pra ir em dois festivais no mesmo mês sem vender o carro ou hipotecar o gato.

E é aí que mora o incômodo deste rabisco: ao mesmo tempo em que adoramos ver um Iron Maiden desembarcando por aqui a cada dois anos, ou bandas médias lotando o Carioca Club, fomos levados a normalizar preços completamente fora da realidade, especialmente quando falamos das grandes atrações.

Desde quando pagar algo na casa dos R$ 1.000,00 por um ingresso virou normal? Quando virou rotina? Quando virou “é isso aí mesmo, fazer o quê”?

Há poucas semanas comprei meu ingresso para ver o Rush em janeiro de 2027. Já estava mentalmente separando meu rim antes de entrar no site da Ticketmaster, quando fiquei feliz ao descobrir que, por ter conta no banco patrocinador, eu “só” ia pagar uns 600 reais pra ficar no setor das cadeiras, também conhecido como setor dos tiozões que já não têm joelho e lombar pra pista.

Pra comparar (e pensar): o salário mínimo hoje é R$ 1.621,00. Ou seja, um ingresso “com desconto” equivale a quase 40% disso. Quarenta por cento. Um show. Uma noite. Três horas. E olhe lá.

Claro que estamos falando de um evento que, infelizmente, a parcela da população que vive com um salário-mínimo nem cogita frequentar. Mas mesmo olhando para São Paulo, cidade com renda média mais alta, o valor ainda assusta. Segundo o IBGE (via PNAD), a renda média paulistana gira em torno de quatro contos por mês.

Eu sei que essa análise é superficial. Não tô tentando fazer tese de mestrado. Mas ela serve como ponto de partida para o questionamento que dá título a este artigo.

Eventos de grande porte são complexos. Pegue a recente turnê do AC/DC no Brasil, por exemplo: estimativas apontam público entre 60 e 70 mil pessoas por apresentação. No pior cenário, foram cerca de 180 mil pessoas vendo o Angus Young sacolejar no Morumbis.

O valor médio do ingresso foi de R$ 1.320,00. Fazendo uma conta de padaria, o faturamento total das apresentações deve ficado na casa dos R$ 230 milhões.

Fucking duzentos e trinta milhões de dinheiros.

Infraestrutura técnica, segurança, aluguel do estádio, logística, impostos, cachê da banda, remuneração de toda a cadeia produtiva por trás do evento… tudo isso pesa. Mas o ingresso precisa ser tão caro assim?

Aí vem a galera dizendo que a culpa é da meia‑entrada. Outros culpam o custo Brasil, a logística, os impostos, o frete, o dólar, o karma político eterno que vivemos… Volto à pergunta: precisa custar tanto? Quando comparamos com outros países, ponderando fatores econômicos e sociais, será que o abismo é tão inevitável assim?

Não tenho resposta definitiva. Mas lembro de uma provocação feita pelo mestre Gastão Moreira em uma live do KZG, comentando uma análise de um fã do Dream Theater que em 2024 estava put0 com os valores dos tickets na época. O cara comparou preços, locais de eventos, indexou valores em dólar, analisou custos dos shows lá fora e chegou a uma conclusão óbvia: sim, ir a shows no Brasil é mais caro do que em muitos outros lugares.

E o pior é isso: a gente sabe. A gente reclama. A gente xinga no Twitter (porque é Twitter e ponto final). E, no fim das contas, a gente continua indo. O rim que eu economizei no Rush, acabei gastando pra ver Dream Theater agora em maio. E segue o jogo…

Deixe um comentário