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Sobe o Som #03 – Joe Satriani: “Borg Sex”

Por Erick

Lembro de ter visto uma matéria na MTV, lá no comecinho dos anos 2000, dizendo que David Bowie lançaria uma coletânea com seus hits dos anos 80, batizada de “What The Hell Was I Thinking?”. Procurei esse disco depois, e nada. Nenhuma menção, nenhuma capa, nenhuma tracklist. Às vezes acho que minha memória me pregou uma peça, ou talvez a notícia tenha sido só boato mesmo.

Mas o ponto é outro. Se até o Mestrão Bowie (salve, Babu Baia!) teria se questionado sobre algumas fases da carreira, imagina o resto da reles humanidade. Eu, por exemplo, adoraria ouvir o Metallica comentando o St. Anger, o Stevão falando sobre o Virtual XI, ou o Mustaine revisitando o Risk.

E nessa linha de “o que será que passou na cabeça do sujeito?”, chegamos a Joe Satriani e o seu Engines of Creation, de 2000. O oitavo álbum de estúdio do careca é, no mínimo, curioso. E talvez um dos capítulos mais incompreendidos da carreira dele.

No fim dos anos 90, o enfadonho drum’n’bass e a onda eletrônica estavam dominando tudo. Bandas como The Prodigy e Chemical Brothers pautavam a sonoridade da época e, inevitavelmente, influenciavam o rock.

Satriani, que nunca pareceu preocupado com hits (afinal, música instrumental não é exatamente popular), embarcou nessa vibe e resolveu experimentar. Plugou a guitarra direto num HD, trabalhou com o produtor francês Eric Caudieux e mergulhou num processo de composição e mixagem quase todo digital. O resultado foi um álbum que ele próprio descreveu como “integralmente techno”.

Mas, convenhamos, o Engines of Creation é mais rock do que parece à primeira ouvida.

A prova disso está no álbum seguinte, gravado ao vivo em São Francisco, onde Satriani executa várias faixas desse disco na formação clássica: guitarra, baixo e bateria (ok, tem teclado, mas só pra figuração). Compare as versões de Devil’s Slide, Until We Say Goodbye (a única faixa produzida de forma tradicional no Engines) e, principalmente, Borg Sex, e tente me provar o contrário. Você falhará miseravelmente!

E, a propósito, que som arregaçador é Borg Sex!

A faixa começa com um riff hipnótico que carrega a música inteira e culmina num fraseado quase sabbathiano, lá pelo segundo solo, quando parece que o Satch está simulando uma conversa entre o R2-D2 e o BB-8 com a guitarra.

Se na versão de estúdio há camadas digitais e diversas texturas eletrônicas, ao vivo, o peso vem de verdade: o baixo de Stu Hamm e a bateria de Jeff Campitelli transformam o som num groove denso e pesado, mostrando que o experimentalismo de Engines não era delírio. Era curiosidade criativa pura.

Fico me perguntando o que o Joe pensa hoje sobre essa fase. Pela pegada mais orgânica do álbum de estúdio seguinte, Strange Beautiful Music (2002), dá pra sentir que Engines of Creation foi uma experiência, uma aventura fora da rota. Um ponto de inflexão entre o virtuoso técnico e o explorador sonoro.

Um play que rendeu bons momentos, como Borg Sex, e algumas ideias que ficaram pelo caminho. Mas que, de um jeito ou de outro, mostra o que sempre fez de Satriani um músico tão singular: a coragem de experimentar, mesmo quando o mundo não entende.

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