Por Erick
Se você estava vivo no começo dos anos 90 e gostava de rock, aposto 100 dinheiros que você não passou incólume pelo Grunge. Sendo fã ou não do estilo, você tem que admitir que as guitarras sujas vindas de Seattle sepultaram de vez o moribundo Metal Farofa dos anos 80 e ajudaram um monte de gente a se aventurar na música pesada pela primeira vez.
Embora eu discorde categoricamente da ideia de que o rock morreu (aff, que preguiça eu tenho disso), é inegável que o Grunge foi o último grande momento do rock no mainstream, conquistando pódios nas paradas musicais no Brasil e no mundo.
Lembro bem do TOP 20 Brasil da MTV sendo liderado por Nirvana, Pearl Jam e Alice in Chains com a mesma naturalidade que hoje veríamos qualquer musa pop tiktoker dominando tudo, caso a falecida music television ainda existisse.
Entre as bandas que abriram espaço nos music charts na raça, só com vocal-guitarra-baixo-bateria e no rastro das camisas xadrez flaneladas, o Soundgarden era uma das mais interessantes e, ao lado da Alice Acorrentada, uma das que adicionavam peso às composições sem cerimônia.
Se com Badmotorfinger eles apareceram para o grande público, impulsionados pelo carro-chefe Outshined, foi com o lançamento de Superunknown em 1994 que a banda alcançou o patamar de gigante.

Bem-produzido e contando com apoio irrestrito da gravadora, que nadava de braçada na popularidade do gênero e despejava dinheiro na produção de clipes e na promoção da banda como atração principal em grandes shows e festivais mundo afora, o álbum marca o apogeu do Soundgarden. É praticamente um best of do quarteto: Fell on Black Days, Spoonman, Black Hole Sun e The Day I Tried to Live se tornaram sons emblemáticos daquele momento em que as rádios rock ainda tinham alguma relevância no dial.
Confesso que Black Hole Sun me deu no saco de tanto que tocou em todo lugar, mas, sem dúvidas, é em The Day I Tried to Live que minha memória sempre voa quando penso na banda.
Com uma atmosfera cadenciada e menos pesada que as demais músicas do álbum, The Day I Tried to Live carrega um clima denso e melancólico. Acompanhando o tom mais introspectivo da letra, os vocais de Chris Cornell são quase sussurrados em boa parte da faixa, fazendo com que o clima raramente se altere ao longo dos seus cinco minutos e poucos segundos de execução.
O baixo de Ben Shepherd marca presença definitiva ao conduzir a melodia sem se ofuscar pela bateria cortante e precisa de Matt Cameron, principalmente nas partes entre os refrões.
Se não há os costumeiros riffs sabbathianos nas seis cordas de Kim Thayil, desta vez o dono do Jardim Sonoro opta por linhas mais simples, com efeitos modulados e texturas que criam camadas discretas, mas fundamentais para sustentar a harmonia e reforçar o caráter quase hipnótico da música.

O clipe traduz muito bem a estética daquele começo de década. Dirigido por Matt Mahurin, que também assinou outras pérolas visuais da época como The Unforgiven do Metallica e No Excuses do Alice in Chains, o vídeo se destaca pelo visual sombrio, usando tons de cinza ou sépia e aqueles efeitos surrealistas tão comuns naquele momento.
The Day I Tried to Live é uma música diferente que invadiu o hit parede mesmo carregando toda essa melancolia e capturou de forma muito precisa a vibe daquele período em que o Grunge ainda ditava o humor de uma geração inteira, oscilando entre introspecção, peso e um certo desencanto que parecia pairar no ar.



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