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A música da minha vida (e, possivelmente, do meu funeral) – Dream Theater ao vivo em São Paulo, 09 de maio de 2026

Por Erick

O Dream Theater voltou ao Brasil para encerrar a segunda perna da turnê de comemoração dos seus 40 anos e do lançamento do seu mais recente álbum de estúdio, Parasomnia. Era a volta dos caras pouco menos de 18 meses depois da última passagem por aqui, e a expectativa estava lá em cima. Se em 2024 o grande chamariz tinha nome e sobrenome (Michael Stephen Portnoy, a.k.a. Mike Portnoy, o dono da porra toda), em 2026 a banda apostou no conceito “An Evening with Dream Theater”, com a execução completa do novo álbum, clássicos espalhados pelo set e, como cereja do bolo, a apresentação de um dos seus maiores épicos: a fenomenal “A Change of Seasons”.

Ainda assim, não sei dizer se esse “cardápio” não foi suficiente para atrair os fãs mais casuais ou se, mais uma vez, os preços salgadíssimos dos ingressos afastaram parte do público. O Vibra São Paulo recebeu muita gente, mas ficou longe de lotar como em outros tempos. A ponto de, minutos antes do show, funcionários da casa circularem oferecendo upgrade gratuito para a pista.

Confesso que isso me incomodou. Na minha cabeça de fã die-hard, bateu aquele medo tolo de que a banda interpretasse isso como falta de interesse e deixasse o Brasil de lado em futuras turnês.

Mas, aos poucos, a casa foi enchendo. O público foi chegando, a energia foi subindo, e mesmo sem estar abarrotado, o clima era de celebração. E quem esteve lá viu uma apresentação de respeito, superior às mais recentes e digna de entrar na lista das melhores passagens do DT pelo Brasil, rivalizando com momentos históricos da banda por aqui.

O show começou direto com Parasomnia na íntegra. Sem papo, sem pausa, sem respiro. E aí veio a primeira constatação da noite: o álbum cresce ao vivo. “Night Terror” e a (enfadonha) “The Shadow Man Incident” ficam mais encorpadas no palco, e “Dead Asleep” e “Midnight Messiah” ganham um fôlego maior do que têm no estúdio.

Parte disso vem da ambientação. Luzes, telões, vinhetas e toda a estética pensada para reforçar o conceito do disco. A experiência ajuda a entender melhor a proposta e dá outra dimensão ao álbum.

Ainda assim, mesmo com essa melhora, continuo achando Parasomnia um trabalho mediano. A experiência foi boa, valeu a pena, mas não precisa ser repetida. Esperava mais do play, e mesmo reconsiderando algumas opiniões depois de ouvi-lo ao vivo, ele continua longe das primeiras prateleiras da banda.

Após um intervalo de 20 minutos, o DT voltou para a segunda parte da celebração dos seus 40 anos. Assim como no show de dezembro de 2024, a ideia era passear pela discografia e entregar um verdadeiro fan service para quem acompanha o quinteto há décadas. Se você olha o set isoladamente, dá para sentir falta de faixas de álbuns icônicos como Awake e Train of Thought. Mas, considerando que o giro atual complementa o de 2024, tudo se encaixa.

A Rite of Passage”, “The Dark Eternal Night” e “Peruvian Skies” vieram com força e o sempre questionado James LaBrie entregou uma performance bastante aceitável. Aos 63 anos, ele soube jogar com inteligência, evitando forçar a voz onde sabidamente já não alcança mais. A versão encurtada de “Take The Time” é prova disso: cortaram justamente a parte que exigiria mais dos vocais.

Quando essa viagem pela discografia terminou, um clipe de Sociedade dos Poetas Mortos surgiu no telão, anunciando o momento mais esperado da noite: “A Change of Seasons”. A plateia entrou num estado quase litúrgico durante os impecáveis 23 minutos da música. A banda manteve o arranjo fiel ao estúdio, com espaço para as brincadeiras tradicionais nas partes instrumentais, e entregou uma execução de precisão absurda.

Carregada de emoção, a música que retrata um dos momentos mais sensíveis da vida de Portnoy também toca fundo muita gente. Inclusive eu.

“A Change” é, sem dúvidas, a música da minha vida. Não só pela composição, mas pela forma como a letra retrata as passagens da nossa existência, associando-as às estações do ano de um jeito melancólico e poético, como a própria vida.

Ela é tão importante para mim que pedirei que seja executada no meu funeral, quando chegar a hora da minha passagem. Por isso, vê-la ao vivo, estando vivo, fez toda a diferença.

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