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Brasil 2000 FM: meu abrigo no fim do dial nos anos 2000 e poucos

Por Erick

Acompanhei de perto todo o movimento de luto e reverência ao fechamento da Eldorado FM de São Paulo na semana passada. Embora a inquilina recém despejada dos 107,3 nunca tenha ocupado lugar certo no meu dial, eu sei exatamente aquilo que os “melhores ouvintes” sentiram ao soar das 23h57 do último dia 14 de maio.

E não só pela coincidência da frequência.

Vivi o mesmo sentimento de perda com a 97FM de Santo André em 1994, anos mais tarde na derrocada pop dance da 89 FM (que depois de alguns anos andando no vale das sombras voltou à luz, meio cambaleante, mas ainda viva) e, claro, com a própria Brasil 2000 em 2011.

Pra quem não teve a oportunidade de conhecer a rádio, segue aí um senta que lá vem a história: a Brasil 2000 ocupava uma frequência educativa no dial paulistano, gerenciada pelas faculdades Ibero Americana e Anhembi Morumbi. Nasceu em 1985 com uma programação musical bastante variada, do rock ao soul, passando por blues e reggae.

Mas foi no final da década, quatro anos após seu lançamento, que a Brasil ganhou a cara que a fez conhecida. Pela mão de Roberto Miller Maia, sim, o cara que co-apresenta o Show do Tatola atualmente na 89, a rádio passou a encarar aquilo que muita gente considera pioneiro no país: a pegada de college radio. Rock alternativo, bandas independentes (nacionais ou gringas), tendências, experimentação e uma liberdade editorial que não existia em mais lugar nenhum do dial. A Brasil, sob a batuta de Maia, consolidou uma identidade cult num cenário dominado por playlists mais comerciais.

A Brasil sempre esteve presente nas memórias pré-setadas do meu bom e velho três-em-um. Durante anos, aquela rádio do final do dial tinha um apelo curioso, de descoberta, mas não me cativava o suficiente pra virar presença diária. Achava a programação esquisitona, metida a hippongo, o que hoje facilmente chamaria de hipster.

Entretanto, foi com o final melancólico da pegada rock da 97 que comecei a me acostumar com a Brasil. Afinal, logo em seguida ao bandoleio da nossa ex-querida estação santo-andreense, foi lá que o grande Vitão Bonesso começou a hospedar seu longevo e seminal Backstage. Foi a ida do Vitão para os estúdios da Pedro Soares de Almeida, 74, na Pompéia, que começou a construir meu refúgio sonoro, aquele que serviria de abrigo anos depois.

Esse convívio diário já era forte quando, em meados de 2006, a 89 deixou de ser rock, como comentei acima. Órfão de rádio, encontrei na Brasil uma horda de vozes conhecidas da então ex-rádio rock: Tatola Godas, Daniel Daibem, André Góis, só pra citar alguns que me vêm à mente agora, foram responsáveis por me inserir naquele universo que, aos poucos, foi me agradando ao unir tanto a pegada mais hard/heavy da 97 quanto o apelo mais pop rock da 89.

Além deles, outros nomes da casa estavam presentes no meu dia a dia: Fabi Ferraz e Paula Baldassari no DDO (Discagem Direta do Ouvinte), o filho do pai da matéria (brincadeira rs), Osmar Santos Jr., com seu programa semanal de hit parade internacional (que eu não lembro o nome nem por decreto), a zorra sarcástica do Garagem, com Paulão, Barcinski e Álvaro Pereira Jr. mandando bronca na Ana Maria Broca às sextas à noite e o insuperável Lançamento Nosso de Cada Dia, apresentado pela dupla Tatola e Maia às tardes durante a semana.

A Brasil foi minha companheira no walkman no trajeto para a faculdade e, depois da derrocada da 89, virou minha #favoritaça no rádio do carro todos os dias até 2006. Mas, a verdade é que a rádio já vinha perdendo fôlego havia algum tempo.

A partir da metade da primeira década deste século, com a saída de diretores artísticos relevantes (incluindo gente do tamanho e importância de Kid Vinil, o herói do Brasil), a emissora começou a desandar. Quando chegou o fatídico 2006, já não conseguia mais se sustentar financeiramente só com o rock alternativo. Começou a arrendar e lotear horários, retransmitiu o sinal da Rádio Bandeirantes, virou afiliada da Rede Eldorado em 2009 e transmitiu até futebol. Foi se apagando aos poucos, como quem tenta sobreviver respirando por aparelhos.

O fim definitivo no dial veio em 2011, quando o Grupo Estado assumiu os 107,3 MHz de vez. A partir de março daquele ano, a Brasil 2000 abandonou o FM completamente e passou a operar exclusivamente como web rádio, sob o comando do incansável Osmar até 2016.

Há poucas semanas, encontrei uma nova iniciativa com o nome “Brasil 2000” na web. Pelo que parece, não tem vínculo algum com as fases anteriores da marca, mas a equipe responsável atual faz streaming de músicas com a pegada e a abordagem da antiga rádio, ainda que sem aquela impressão tão comum da frequência modulada.

E aí bateu um negócio. No fim das contas, a Brasil 2000 virou isso: uma lembrança que insiste em ficar acesa, mesmo depois de tanta mudança, tanto arrendamento, tanta gambiarra pra sobreviver no dial. Ver essa “Brasil 2000” surgir na web não é a mesma coisa, claro. Falta o cheiro de rádio de verdade, a textura do dial, a sensação de que alguém ali dentro estava descobrindo as coisas junto com você.

Mas, ainda assim, é como se uma porta que eu achava trancada tivesse ficado entreaberta de novo.

Não sei se vou ouvir sempre, não sei se vai me pegar como pegou lá atrás. Só sei que, num mundo onde as rádios que marcaram a gente vão sumindo uma a uma, qualquer fagulha que lembre o que foi a Brasil 2000 já vale o play.

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