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Sobe o Som #12 – Tuomas Holopainen: “A Lifetime of Adventure”

Por Erick

Nunca fui fã do Nightwish. Conheço só as músicas que acabaram chegando até mim mesmo quando não estava procurando por elas, e por isso sempre enxerguei Tuomas Holopainen mais como um sujeito complicado do que como um compositor brilhante. Minha impressão vinha muito mais das histórias sobre o temperamento dele do que da música em si. Comecei pelo mito, não pela obra, e isso sempre distorce tudo.

A primeira vez que realmente prestei atenção no que ele fazia foi em 2014, quando descobri que ele tinha musicado uma HQ do Tio Patinhas. Não era o tipo de projeto que eu esperava dele! Eu cresci lendo os quadrinhos da Disney, assinatura da Editora Abril que ganhei de uma tia, e fui criado a base de DuckTales no SBT. Quando ouvi que o “cara do Nightwish” tinha feito um álbum inspirado no velho pato sovina, achei que valia a curiosidade.

O disco nasceu de The Life and Times of Scrooge McDuck, a série criada pelo quadrinista americano Don Rosa em que ele reconstrói a vida inteira do Tio Patinhas como se fosse uma biografia real, com datas, lugares e uma trajetória marcada por teimosia, obsessão e escolhas difíceis. Uma parte importante dessa história passa pelo Klondike, a corrida do ouro no Canadá no fim do século XIX, um cenário de frio e isolamento que combina com gente obstinada.

Não é difícil entender por que isso chamou a atenção do Tuomas, que sempre teve uma relação intensa com o próprio trabalho. O Patinhas acabou funcionando como um espelho.

O álbum não tenta ser metal nem soar como Nightwish. Ele se apoia em orquestra, folk celta, coral e uma estética de trilha de filme que funciona melhor quando você acompanha a narrativa com calma, deixando a música construir o ambiente no próprio ritmo. É um disco que prioriza atmosfera em vez de impacto imediato.

É nesse contexto que aparece A Lifetime of Adventure, a única faixa com vocal. A escolha de Johanna Kurkela, que na época já tinha uma relação próxima com o Tuomas e mais tarde se tornaria esposa dele, dá à música um tom mais íntimo do que o álbum inteiro sugere. A segunda voz, da Johanna Iivanainen, funciona como uma lembrança paralela, uma textura que se soma à primeira sem disputar espaço. As duas não formam um dueto tradicional; elas soam como duas memórias que se sobrepõem.

O solo de guitarra segue essa mesma lógica de proximidade. Quem toca é Mikko Iivanainen, marido da Johanna Iivanainen, e isso ajuda a entender por que o solo não tenta se impor. Ele aparece como uma extensão natural da voz dela, mantendo o clima da música em vez de criar um momento de destaque. A entrada dele soa como uma continuação do que as duas vozes já estabeleceram, e quando você percebe quem está envolvido em cada parte, essa integração toda ganha um sentido mais claro. A intimidade não está na letra, mas na maneira como essas relações moldam o arranjo.

Falando em arranjo, este avança de maneira contida. A música parece alguém que escolhe as palavras com cuidado enquanto revisita memórias que não sabe se quer revisitar. Se o resto do disco acompanha o Patinhas jovem, teimoso e em movimento, A Lifetime of Adventure mostra o personagem já velho, encarando o próprio passado. E, inevitavelmente, mostra o Tuomas encarando o dele também.

O clipe reforça essa leitura sem recorrer a nenhum tipo de espetáculo. A figura solitária na cabana, Rosa desenhando, o inverno lá fora, tudo funciona como extensão da música. Não há ouro, aventura ou ação. Há a tentativa de organizar o que sobrou depois de uma vida inteira dedicada a um objetivo. É quase um anti clipe, construído para mostrar que a aventura já ficou para trás e que agora resta lidar com o que ela custou.

A essa altura, fica claro que o disco não está interessado em narrar uma história de exploração ou fortuna. Ele se ocupa da relação que alguém cria com a própria trajetória depois de tantos anos insistindo nas mesmas escolhas.

O Tio Patinhas é o personagem, mas o reflexo é do Tuomas, e qualquer pessoa que já parou para olhar a própria vida com alguma distância reconhece esse desconforto. A letra deixa isso explícito naquele verso que resume tudo: “to be rich is to seek, to relive a memory“. A riqueza, nesse caso, não tem nada a ver com ouro. Tem a ver com o que você tenta revisitar quando percebe que já viveu mais do que ainda vai viver.

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