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Visitamos a Neseblod Records na Noruega

Por Alex

No final de maio, peguei a rota Irlanda-Noruega para uma viagem a trabalho. Com a correria, só consegui arrumar umas horinhas livres no final do dia para dar uma circulada por Oslo. Foi aí que decidi pegar emprestado o conceito do quadro Mapa da Mina, da Bárbara, para trazer um relato sobre um verdadeiro pico de rock. Só que, dessa vez, a visita foi para lá de sinistra.

A ideia começou quando eu estava andando pelo centro de Oslo. Eu estava a apenas alguns minutos da Katakomben Records e resolvi dar uma voltinha até lá. A loja fechava às 18hs então consegui pegar bem o fim do expediente e a ponto de logo de cara já avistar um disco do Sarcófago! Enviei umas fotos pro Erick por WhatsApp e comentei que a Nesebled Records não tava muito longe dali. Só que estava com uma mega preguiça de caminhar mais.

Como os dias no verão Norueguês são longos e a luz estava ao meu lado, resolvi então fazer esse esforço e ir conhecer a mardita! Sim, a loja do cara do Mayhem, o Euronymous, guitarrista e fundador da banda.

Em 1991, Euronymous abriu uma loja de discos em Oslo chamada Helvete (que significa “Inferno” em norueguês). É hoje onde funciona a Neseblod Records. A loja virou o ponto de encontro de pessoas que queriam chocar a sociedade, já que naquela época ainda não existia TikTok e, fazer planos talvez digamos, incendiários. No subsolo da Helvete, Euronymous criou o Inner Circle, um grupo radicalizado de músicos e fãs que pregava o anticristianismo enquando faziam desenhos à guache de igrejas queimando.

A história do Euronymous acabou da forma mais violenta possível em agosto de 1993, quando ele tinha apenas 25 anos, assassinado por Varg Vikernes, também conhecido por Burzum e alvo de vampetaços na internet por suas declarações pra lá de polêmicas (https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2020/08/19/brasileiros-trollam-neonazista-vampeta/).

O assassinato de Euronymous e a prisão de Varg colocaram o Black Metal norueguês nas manchetes do mundo inteiro, exportando uma imagem meio indesejada da Noruega para o resto do mundo. Se sua avó conhecia só o bacalhau norueguês, então mostra esse artigo aqui pra ela!

Gostando ou não, o black metal norueguês se transformou em um fenômeno sociocultural — marcado por ideologias radicais, polêmicas e uma sonoridade que desafiava tudo o que existia, ou como diria a avó do Erick – rock ‘podrera‘ (porque nem paulera da pra dizer que é)!

Apesar de pessoalmente eu nunca ter sido um grande apreciador do estilo, com pouquissímas excessões, visitar a Neseblod Records é pisar no epicentro dessa história. Entrar ali, descer até aquele subsolo icônico com a inscrição “Black Metal” na parede, não é apenas ver relíquias; é respirar (um ar mofado) a história viva do underground. É o lugar onde o mito e a realidade do metal extremo se encontram.

Parede do porão da Neseblod Records em Oslo, Noruega com os dizeres Black Metal grafitados.
Parede do porão da Neseblod Records em Oslo, Noruega.

O clima no andar térreo da loja é de boa. Pra quem já visitou as lojas da Galeria do Rock em São Paulo, até se sentiria em casa, com excessão talvez da ausência do cheiro do x-burger das lanchonetes do andar térreo. A variedade de discos em vinil, fitas K7, CDs, DVDs e Blu-Ray é bem grande, para um espaço pequeno, com material empilhado quase até o teto da loja e também distribuídos por prateleiras empoeiradas e caixas no chão. Quase não tem espaço pra andar, mas tive sorte de chegar perto do horário do fechamento e a loja já estava relativamente vazia,

Entrada da Neseblod Records em Oslo, Noruega.

Fui bem recebido pela vendedora, que apesar de muitos piercing no rosto e tatuagens no braço, não estava usando nenhuma maquiagem corpsepaint, muito menos bebendo sangue de bode em uma taça de vinho.

Detalhe para o aviso que furtar é considerado crime grave, até para os padrões Black Metal!

Fun Fact: Eu apareço nesse DVD do Grave Digger, aí!

Passei uns dez minutos dando uma olhada nos discos e resolvi comprar um single do Blind Guardian que faltava na minha coleção. Daí me dei conta que a loja estava prestes a fechar. Não recebi nenhum olhar amaldiçoador por cometer a blasfêmia de não ter escolhido algum disco de black metal, então se um dia você pisar por lá, pode ir tranquilo. São todos amigos!

As camisetas fazem parte do museu, colecionando poeira e história de um passado não tão glorioso assim.

Perguntei se podia conhecer o famigerado porão. A vendedora muito simpática me mostrou a escadinha que desce até lá e sem exigir nenhum sacrifício em troca. Literalmente, parecia que estava realmente descendo ao inferno! Logo ao descer, a primeira parte de baixo era só mais uma continuação da loja, com muita mercadoria! Uma pena eu não ter mais tempo pra fuçar. Porém, fez bem pro bolso pois pagar coisa em coroas norueguesas não é fácil não.

Passando pela parte de baixo da loja logo você dá de cara com uma porta e a parte do porão onde começa o passeio da danação! Conforme a música que tocava ia desaparecendo e o silêncio daquele porão úmido toma conta, você começa a entrar mais no clima do que aquilo ali representa. Parece que o tempo parou. Muita coisa sinistra no local, pinturas nas pareces que parecem mais artes rupestres de uma civilização antiga, muita tralha velha e, coisas queimadas! Não, não eram as igrejas!

Parecia cenário de guerra em alguns cantos: discos de vinil derretidos, capas encharcadas de fuligem e o cheiro de queimado parado no ar. Essas são as marcas registradas do incêndio de abril de 2024. A atmosfera é realmente pesada, com o perdão da palavra. Se o Black Metal não fosse só um estilo musical, teria o cheiro desse porão!

Muita gente achou que o marco zero do Black Metal tivesse virado cinzas, o que seria uma ironia quase poética, levando em consideração o que aconteceu com igrejas na Noruega como a Fantoft Stave. Enquanto seções de punk e rock local foram consumidas pelas chamas, a mítica parede “Black Metal” e o acervo histórico de Euronymous resistiram!

Artigos queimados durante o incêndio de 2024

Caminhando pelo porão, já estava ficando ansioso e meio claustrofóbico. Mas a curiosidade era grande pra ver o que me aguardava na famosa sala com o famoso grafite Black Metal. Já que literalmente, se está no inferno, abraça o capeta, quando entrei naquele cômodo, aproveitei pra sentar no troninho do pé junto, com o banner do Venon atrás pra coroar esse passeio sinistro.

Welcoming the virgins fair, to live a noble life
In the castle known to all, the Count’s infernal wife

No quartinho do Mayhem, em cima dos destroços da lareira, tem um livro de visitas.

Aproveitei pra assinar e percebemos que depois desse dia, batemos o recorde de inscrição no nosso canal do YouTube com mais 3 inscritos!

E assim termina essa nossa rápida peregrinação. Polêmicas e controvérsias à parte, o impacto do Black Metal norueguês na cultura pop e na música extrema é um fato incontestável. Pisar ali é entender como uma faísca acendida num porão de Oslo se transformou em um incêndio que se espalhou pelo mundo e que continua queimando até hoje. Valeu pela companhia nessa caminhada sinistra, e até o próximo post!

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