Por Erick
Tem bateristas que impressionam pela velocidade e outros que chamam atenção pela técnica. E há Mark Zonder, que faz as duas coisas parecerem secundárias diante do que realmente importa: a música.

Dono de um dos estilos mais elegantes do metal progressivo, Zonder construiu uma carreira baseada em precisão, criatividade e um senso de groove que desafia a lógica. Enquanto muitos bateristas do gênero apostavam em pedais duplos e demonstrações de força, ele seguiu outro caminho ao transformar compassos quebrados em algo natural, fazendo a bateria conversar com as composições e nunca competir com elas.
Foi no Warlord, banda fundada em 1980 e que rapidamente se tornou um nome cult no underground norte‑americano, que ele começou a chamar atenção. O quarteto ganhou notoriedade com o EP Deliver Us (1983) e com o álbum And the Cannons of Destruction Have Begun… (1984), ambos marcados por uma estética épica, melodias neoclássicas e arranjos que fugiam do padrão do heavy metal da época. Zonder se destacou justamente por trazer uma abordagem mais refinada e articulada, contrastando com o estilo mais direto predominante no início dos anos 80. Sua performance em faixas como “Child of the Damned” e “Lucifer’s Hammer” ajudou a moldar a identidade da banda e, posteriormente, influenciaria boa parte do power metal europeu, especialmente grupos como HammerFall, que inclusive regravou “Child of the Damned” reconhecendo publicamente a importância do Warlord.

Mas foi ao entrar para o Fates Warning, em 1988, que seu nome passou a integrar a elite do metal progressivo. A banda, que havia começado nos anos 80 com uma sonoridade mais próxima do heavy/power metal, estava em plena transição para algo mais sofisticado. A chegada de Zonder coincidiu com a fase mais inventiva do grupo, marcada pela parceria entre Jim Matheos e Ray Alder e pela busca por estruturas rítmicas e harmônicas cada vez mais ousadas. Perfect Symmetry (1989), Parallels (1991), Inside Out (1994), A Pleasant Shade of Gray (1997) e Disconnected (2000) consolidaram sua reputação como um dos bateristas mais criativos e musicais do gênero.

Décadas depois, ele segue mostrando que ainda tem muito a dizer. Ao lado do velho parceiro Ray Alder, fundou o A‑Z, projeto que nasceu com a proposta de resgatar a energia direta do hard/heavy clássico, mas sem abrir mão da sofisticação que sempre marcou sua carreira. O primeiro álbum, A‑Z (2022), apresentou canções mais concisas, com foco em melodias fortes e arranjos acessíveis, mas ainda carregadas de nuances rítmicas típicas de Zonder. Em 2024, o segundo disco, A‑Z II, aprofundou essa proposta, trazendo uma produção mais robusta e um trabalho instrumental ainda mais refinado, reforçando que a dupla encontrou uma identidade própria fora do Fates Warning, moderna, direta e ainda assim sofisticada.

Talvez Mark Zonder nunca tenha alcançado o status de celebridade que alguns colegas conquistaram, mas entre músicos, bateristas e fãs de metal progressivo, seu nome ocupa um lugar reservado aos verdadeiros mestres. A técnica impressiona, a velocidade chama atenção, mas transformar tudo isso em música com personalidade, intenção e sensibilidade é um talento raro. E é justamente aí que Zonder permanece uma referência absoluta, alguém que não apenas domina o instrumento, mas entende profundamente como fazê‑lo servir à arte.



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