Por Erick
Eu tenho um ritual toda vez que sei que vou ver uma banda que significa muito para mim ao vivo. Recomeço a discografia, não importando quantas vezes eu já tenha ouvido aqueles discos, porque acredito que esse é um jeito de chegar ao show com tudo vivo na memória.
É exatamente isso que está acontecendo agora. A enxurrada de vídeos da atual turnê do Rush, especialmente da passagem do (hoje) quarteto pelo Madison Square Garden, foi o empurrão que faltava para começar a preparação para janeiro, quando verei a banda na Fifty Something Tour em São Paulo. E, como quase todo mundo faria, comecei pelo óbvio, Moving Pictures.

A escolha também trouxe de volta uma conversa que tive com o Mateus Ribeiro, brother do Whiplash e já figura carimbada nesta empresa vital (pega a ref… rs), no começo do ano. Em determinado momento, surgiu aquela pergunta inevitável para qualquer fã do Rush: Seria o Moving Pictures o maior álbum da banda?
Na época, respondi que não.
Não porque eu não considere o play uma obra-prima. Muito pelo contrário. Mas porque, em uma discografia como a do Rush, sempre tive dificuldade em apontar um álbum acima dos outros.
Só que essa nova audição trouxe uma surpreendente reflexão. “Vital Signs“. (pegou a ref? rs)

Sempre gostei desse som. Sempre achei um encerramento perfeito para o Moving Pictures. Mas, dessa vez, ela me pegou de uma maneira diferente. Percebi que talvez nunca tivesse dado a devida atenção ao papel que ela ocupa dentro da história do próprio Rush. E talvez isso esteja justamente na forma como ela soa.
“Vital Signs” é uma música diferente dentro do Moving Pictures. O baixo de Geddy Lee conduz a faixa com um groove que não era comum na banda até então. Neil Peart, conhecido por sua precisão e complexidade, trabalha muito mais a dinâmica e o balanço. Alex Lifeson cria espaços e texturas, deixando a música respirar em vez de buscar o protagonismo.
E, no meio disso tudo, estão o reggae, a new wave e os (muitos) sintetizadores.
Para uma banda que acabara de lançar o maior sucesso comercial de sua carreira, aquela escolha era bastante ousada. Em vez de encerrar o Moving Pictures reafirmando o caminho que havia levado a banda até ali, o Rush colocou no disco uma música que apontava para o futuro.
Foi aí que um verso começou a ganhar outro significado.“Everybody got to deviate from the norm.”
Quanto mais eu ouvia essa frase, mais ela parecia explicar não apenas “Vital Signs“, mas a própria trajetória dos canadenses.

A banda sempre teve uma relação curiosa com as expectativas alheias. Quando o punk dizia que o rock progressivo estava morto, o Rush continuava fazendo discos como Hemispheres. Quando muitos fãs esperavam novos “Xanadu” ou “2112“, eles resolveram seguir uma direção diferente justamente no auge do sucesso.
Anos depois, quando uma nova geração de bandas de metal progressivo surgiu seguindo caminhos que o próprio Rush ajudou a abrir, o trio fez o movimento contrário e resolveu simplificar o som.
Olhando para a trajetória da banda, fica claro que repetir uma fórmula nunca pareceu ser uma opção. O Rush sempre preferiu desafiar as próprias expectativas antes de atender às expectativas dos outros.
E aí entra a genialidade de Neil Peart. Talvez ele estivesse falando sobre adaptação, individualidade ou sobre a necessidade de escapar de padrões. Mas, ouvindo “Vital Signs” hoje, é difícil não perceber que aquele verso acabou resumindo a própria trajetória artística da banda que ele ajudou a construir.

Foi isso que me fez voltar à conversa com o Mateus.
Ainda não sei se Moving Pictures é o maior álbum do Rush. Talvez essa seja uma daquelas discussões que nunca terão uma resposta definitiva, principalmente quando falamos de uma banda com uma história tão rica. Mas hoje tenho uma certeza que não tinha alguns meses atrás. “Vital Signs” é muito mais do que a faixa que encerra o álbum. Ela representa exatamente o que o Rush sempre fez de melhor, seguir em frente quando seria mais fácil repetir aquilo que já havia dado certo.
“Vital Signs” não fecha Moving Pictures. Ela abre tudo o que viria depois.



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