Por Erick
É muito curioso acompanhar, edição após edição, as polêmicas geradas pelo Rock in Rio. Quer você goste (ou entenda) a proposta do festival ou não, se você é alguém ligado ao universo da música é muito pouco provável que passe ileso à chuva de palpites sobre os shows, principalmente daqueles comentadores profissionais de posts alheios nas redes sociais.
E foi justamente por causa de uma enxurrada desses, em um comentário que fiz num post da querida Brasil 2000 no instagrão, que surgiu a ideia deste breve e nada solene artigo. Afinal, se a conversa rende tanto por lá, puxar um pouco das discussões para cá também pode ser bem-vindo. E, convenhamos, se Roberto Medina e cia. limitada são super adeptos da máxima “falem mal, mas falem de mim”, por que o PauleraCast não pode ser?
Todo o rebosteio que inunda a internê nesses dias de festival orbita basicamente três dogmas centrais: o infame “Rock in Rio não tem rock”, a eterna insatisfação com o casting e a mais recente carne de vaca, “o dia do rock é o único que não vende todos os ingressos e, quando isso acontece, é sempre nos 45 do segundo tempo”. Vamos escarafunchar cada um deles neste rabisco.
O primeiro centro gravitacional das polêmicas é o nome do festival e a cobrança eterna por mais rock em um evento que se autointitula “Rock” em algum lugar. Aqui vai um raciocínio, melhor dizendo, uma definição que deve chocar zero pessoas: quer queiram ou não, o Rock in Rio não é um festival dedicado somente ao rock.
Nunca foi. Nunca será.
Cabe lembrar aos incautos que, na real, estamos falando de uma marca sonora para um cacete, construída em 1985, quando o rock era “o som da juventude”. Ou seja, usar o epíteto rock no nome conectava o festival ao momento comportamental do jovem brasileiro (ou até do jovem terráqueo) em que o rock se mostrava como a cara do público que o evento pretendia conquistar, passando uma imagem de modernidade tendencial. Era marketing comportamental, não um pacto de sangue com o power chord.
A marca e o festival por consequência se conectavam ao que era mais popular e, portanto, mais vendável na data da sua criação. Aposto quantos dinheiros você quiser, estimado leitor, que se o nome fosse cunhado hoje, não estranharia se o evento fosse batizado como Pop in Rio, Trap in Rio, Hip Hop in Rio, K-pop in Rio ou qualquer outra variação de sucesso na insuportável e efêmera TikTokesfera. Ou seja, o nome sempre foi sobre vender, não sobre canonizar um gênero.
A primeira pedra contra esse argumento costuma ser os line-ups, principalmente da edição inaugural e dos shows de 1991. Cabe lembrar ao nostálgico headbanger que costuma execrar qualquer coisa musical com menos de 35 anos de existência que, tanto em 1985 quanto em 1991, Scorpions e Guns N’ Roses eram bandas extremamente pop. Não no estilo, mas na popularidade, com o perdão do pleonasmo.
“Still Loving You” era trilha de novela, tocava no rádio da perua escolar que me levava à segunda série do ensino fundamental, sintonizado na Rádio Cidade (que, diferentemente da sua homônima no RJ, tinha zero dedicação ao som do capiroto). E, em 1991, Axl Rose ilustrava pôsteres da Capricho e ocupava cadeira cativa no Disk MTV. Ou seja, o festival fazia e continua fazendo o que faz de melhor: se aproveitar daquilo que é sucesso no dial e hoje nos streamings para trazer público disposto a pagar seus salgados preços.
Outro ponto que desmonta esse argumento incauto é que, digamos, Ivan Lins e Dee-Lite de rock não têm nada. Então, meu caro reclamão de posts alheios, o Rock in Rio não é só rock e os shows do Queen, do Maiden e do Ozzy residem (e bem) na sua memória afetiva. E só lá.
E, na minha opinião, é justamente essa memória que impede que os castings pós-1991 deixem de ser cancelados todas as vezes que são divulgados, incluindo aí aqueles que demonstram um acento mais rock e metal. Trago aqui outra constatação embasbacante que deve surpreender, novamente, zero pessoas: o que é ruim para você pode ser muito legal para outras pessoas.
Simples assim. E tá tudo bem.
Atenho-me ao line-up do dia metal da edição atual. Com exceção de alguns medalhões como Sepultura e Korzus (infelizmente relegado a um palco e horário pra lá de coadjuvantes), a opção de 2026 apontou para uma direção que mira o metalcore muderninho, afeito à Gen Z. Por mais que a estética de uma Poppy ainda me intrigue e desafie meu senso comum velhote para considerá-la metal, é inegável que as escolhas conversam com um público que, de fato, acompanha esses artistas e canta seus sons aos plenos pulmões. O show do cansativo Bring Me The Horizon foi prova incontestável disso.
Aqui entra uma última reflexão: festivais no Brasil são comumente acusados de jogar com o regulamento debaixo do braço, trazendo sempre as mesmas bandas para garantir público. Surge então a walking contradiction. Se traz as mesmas bandas, é falta de criatividade e preguiça de pensar diferente para atender o público que gosta do mais do mesmo. Se inova e aponta para outro caminho, é acusado de se render à modinha. Trabalhar com esse tipo de expectativa deve ser um pesadelo, porque consenso simplesmente não existe.
Falando em consenso, é impossível ignorar que rock, hoje, é nicho. Público definido, apelo comercial limitado.
O simples fato de esquecer isso e ficar requentando a discussão de que os dias dedicados ao rock e ao metal no RiR são os últimos a dar sold-out ou a não alcançar a capacidade limite de público me cansa até os ossos. E, sinceramente, não me preocupa em nada.
Em outro comentário que fiz no site Headbanger News, defendi a tese de que, se o Bangers (só um exemplo por apreço didático) miar, vendendo poucos ingressos, aí sim temos um problema. Já isso acontecer no RiR, não. Afinal, estamos falando de um evento que não foi pensado para esse nicho.
Querer analisar o comportamento do público rock que não lota o Rock in Rio é a mesma coisa que acompanhar a bilheteria de um filme iraniano exibido no Cinemark e compará-la à do Homem-Aranha, tentando estabelecer um tratado sobre por que o primeiro não vendeu tanto quanto o aracnídeo. Haja pipoca sem manteiga para justificar tamanha masturbação intelectual. Estamos falando de públicos-alvo, hábitos de consumo e, por vezes, condições socioeconômicas muito diferentes.
Aporrinhar o scroll alheio em cima disso é pior que ouvir o Diego Defante cantando (sic) Audioslave.
Porque, na essência, o Rock in Rio já não é um festival de música. É um playground de marcas e ativações instagramáveis para um público mais preocupado com likes, reels e videozinhos de TikTok do que com a música. Essa, infelizmente, fica em segundo plano.



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