Por Erick
É curioso pensar em como descobríamos bandas novas antes da internet transformar tudo em um clique. Hoje basta alguns segundos para ouvir uma discografia inteira, ver vídeos, ler resenhas e decidir se vale a pena investir tempo e dinheiro em determinado artista.
No começo dos anos 90, porém, o processo era bem diferente. Olhando em retrospecto, aquilo que fazíamos para encontrar música nova parece quase um exercício de arqueologia.
Foi exatamente assim que aconteceu comigo e o Fates Warning.

Lembro de ter esbarrado com o álbum Night on Bröcken em uma loja da Galeria do Rock, em São Paulo. A capa, convenhamos, não ajudava muito. Chamava atenção por motivos que dificilmente poderiam ser considerados positivos. Mas o que ficou gravado na memória nem foi a arte do disco, e sim um comentário do vendedor:
“Essa capa é tão ruim quanto o som. É só um pastiche de Iron Maiden.”
Pronto. Bastou aquela frase para que eu arquivasse mentalmente o nome da banda e nunca mais me preocupasse em procurar qualquer coisa relacionada a ela.
Naquela época, a opinião de um vendedor de discos tinha um peso enorme. Afinal, informação era um negócio raro. Não existiam redes sociais, fóruns especializados, podcasts, canais no YouTube ou serviços de streaming para conferir se o sujeito estava falando besteira. Se o cara dizia que a banda era ruim, a tendência era aceitar e seguir em frente.
Anos depois, entretanto, comecei a perceber o nome do Fates Warning aparecendo nos agradecimentos dos encartes de Images and Words e Awake, do Dream Theater. Sim, eu era daqueles que passava horas lendo encartes. E sim, isso era uma atividade perfeitamente normal para quem comprava CDs naquela época.
E aí surgiu uma dúvida que me acompanhou por bastante tempo: será que uma banda que eu considerava referência absoluta no Prog Metal agradeceria a um grupo cuja única qualidade fosse copiar o Iron Maiden?
A curiosidade ficou sem resposta por mais alguns anos, até que, por volta de 1994, assistindo ao saudoso Fúria Metal de Gastão Moreira pela MTV, naquela que deve ser a citação número 4.257.259 dele aqui no PauleraCast, vi o clipe de Point of View.
Bastaram aqueles poucos minutos para que Parallels entrasse imediatamente na minha lista de futuras aquisições.
Algumas semanas depois, durante mais uma peregrinação pelos corredores da Rua 24 de Maio, encontrei o play exposto em uma das prateleiras da Animal Records. Resolvi ignorar de vez o comentário maldoso ouvido anos antes e levar o disco para casa, ainda influenciado pelo peso e pela cadência cativante de Point of View.
Como era de costume naquela época, o período entre a compra e a primeira audição foi preenchido pela leitura do encarte. No metrô, no ônibus e durante todo o trajeto de volta para o ABC, mergulhei nas letras sem sequer ter ouvido uma nota das músicas. Afinal, nos tempos em que tudo era mato, andar por aí com um Discman era um luxo que definitivamente não cabia no meu orçamento.
Quando finalmente cheguei em casa e coloquei o CD para tocar, a boa impressão foi imediata.
A produção era impecável. O som parecia cristalino, equilibrando peso, melodia e sofisticação de uma maneira que poucos discos do gênero conseguiam fazer naquela época. Logo nos primeiros minutos ficou claro que eu havia passado anos ignorando uma banda muito maior do que imaginava.
A sequência inicial formada por Leave the Past Behind, Life in Still Water e Eye to Eye é simplesmente devastadora. As três faixas apresentam de forma exemplar tudo aquilo que faz o álbum funcionar tão bem: riffs inteligentes, bases elaboradas, refrãos marcantes e uma musicalidade que nunca sacrifica a emoção em nome da técnica.
O trabalho das guitarras de Jim Matheos e Frank Aresti impressiona pela criatividade e elegância. Na cozinha, Mark Zonder e Joe DiBiase sustentam cada passagem com segurança absoluta. E acima de tudo está a performance vocal de Ray Alder, que entrega uma das melhores atuações de sua carreira.

Mas é na quarta faixa que surge uma das composições mais emblemáticas da trajetória da banda.
Presente nos setlists até suas tours mais recentes, The Eleventh Hour reúne praticamente tudo aquilo que tornou o Fates Warning um dos pilares do Prog Metal. Longa sem ser cansativa, complexa sem soar pretensiosa, a música alterna dinâmicas, constrói atmosferas e desenvolve temas melódicos com uma naturalidade impressionante.
Depois desse ponto alto, o álbum mantém o nível elevado com a já mencionada Point of View, seguida por duas faixas que poderiam facilmente ter ocupado espaço nas rádios dedicadas ao rock da época: We Only Say Goodbye e Don’t Follow Me.
O disco encerra sua jornada com a semiacústica The Road Goes On Forever, uma música que, para mim, ajuda a revelar um aspecto frequentemente pouco comentado do álbum.
Embora Parallels não seja oficialmente um disco conceitual, sempre tive a impressão de que existe um fio narrativo conectando suas letras. O eu lírico parece revisitar o fim de um relacionamento e as marcas deixadas por ele, criando uma sensação constante de afastamento, amadurecimento e continuidade. São trajetórias que seguem lado a lado, em paralelo, sem jamais voltar a se cruzar. É uma construção temática bastante incomum para uma banda de metal e que acrescenta profundidade a uma obra que já se destaca musicalmente.
Parallels acabou se tornando o álbum mais bem-sucedido da carreira do Fates Warning, alcançando posições de destaque em diferentes mercados e garantindo uma exposição que a banda jamais havia experimentado até então.

Ainda assim, o sucesso relativo do disco não foi suficiente para levar o grupo ao mesmo patamar comercial alcançado por outros gigantes do Prog Metal nos anos seguintes.
Talvez por isso Parallels carregue até hoje um certo ar de joia escondida. Entre os fãs do gênero, seu prestígio é inquestionável. Fora desse círculo, entretanto, continua sendo um daqueles clássicos que muitos ainda não descobriram.
Exatos trinta e cinco anos depois de seu lançamento, o álbum envelheceu de forma admirável. Continua soando moderno, tecnicamente impressionante e emocionalmente relevante. Mais do que isso, permanece como a porta de entrada ideal para compreender a importância do Fates Warning na construção do metal progressivo.
E pensar que quase deixei passar tudo isso por causa da opinião apressada de um vendedor na Galeria do Rock. Felizmente, Point of View apareceu no momento certo para provar que algumas descobertas simplesmente levam mais tempo para acontecer.



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